Blog Lógica e argumentação


ESCREVER É PRECISO

 

Um estudante precisa escrever, escrever sempre e a partir do primeiro dia. Escrever é uma atividade básica para o estudante de filosofia. Ele, o estudante, precisa estar sempre em atividade, pois filosofia é a atividade de pensar a partir de um certo conjunto de problemas.

Escrever, para um estudante de filosofia, é realizar ou uma de duas atividades, ou as duas atividades ao mesmo tempo. A primeira é a de esclarecer os conceitos com os quais trabalha, mostrando seu significado e função, seu uso em diversos contextos, sua história, como alguns filósofos o utilizam, e, principalmente, como ele, o próprio estudante, está utilizando o conceito em causa.

A segunda atividade a ser desenvolvida, em conjunto com a primeira, ou separadamente, é a de defender uma determinada tese com argumentos.

Assim, o percurso da escrita por um aluno de filosofia poderia seguir o seguinte roteiro:

Em primeiríssimo lugar os pressupostos precisam ser preenchidos, que são; a) ter o que dizer. Para ter o que dizer é preciso no mínimo ter pensado sistematicamente sobre algo, em geral um problema; b) ter uma certa base de leitura acerca daquele tema/problema, que leve em conta o que poderíamos chamar de bibliografia relevante.

Dados os pressupostos o estudante deveria colocar nos melhores termos possíveis qual é o seu “problema”. Para fazê-lo é preciso esclarecer os conceitos envolvidos. O esclarecimento dos conceitos, lembramos, pode ser toda a escrita do estudante. Se não o for, passa-se à etapa seguinte.

Tendo apresentado o problema e esclarecido seus termos, passamos então aos dois próximos passos. O primeiro é dar uma solução ao problema ou, no mínimo, posicionar-se quanto a ele, ou seja, apresentar a sua tese ou teoria quanto ao assunto.

Apresentada a tese, o estudante passa imediatamente ao fundamental, que é defendê-la com boas razões. Cada parte de sua tese ou teoria deve ser defendida por completo. Cada argumento apresentado deve servir como base suficiente para a aceitação da teoria ou tese apresentada. Se possível, mais de um argumento deve ser apresentado e todos juntos devem montar um grande argumento único para a defesa de porque a tese apresentada é uma boa tese.

Há, ainda, outras coisas que podem ser feitas como complemento ao que se está a escrever. Pode além de argumentar em defesa da tese própria, mostrar o porquê qualquer tese oposta não é boa, pode-se apresentar exemplos e criar experiências mentais para testar certas partes da tese ou mostrar onde outras teses falham.

Por fim, mas não menos importante; deve-se mostrar como, dos argumentos apresentados, chega-se, enfim, a tese defendida, numa conclusão simples e concisa.

Esses são, pois, os passos necessários para a escrita de um ensaio argumentativo ou com fins de esclarecimento conceitual.



Escrito por Dídimo às 21h12
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Modernização sem ocidentalização

Aleksandr Dugin

"Projecto Eurásia"

A terceira posição

No seu notável artigo, Samuel Huntington, descrevendo o futuro “choque de civilizações” (clash of civilizations), mencionou uma fórmula muito importante – “modernização sem ocidentalização” (modernization without westernization). Ele descreve a relação com os problemas do desenvolvimento socioeconómico e tecnológico de alguns países (por regra, do Terceiro mundo), os quais, compreendendo a necessidade objectiva de desenvolvimento e aperfeiçoamento dos mecanismos políticos e económicos dos seus sistemas sociais, recusam-se a seguir cegamente o Ocidente, e pelo contrário, se esforçam por colocar algumas tecnologias ocidentais – opostas ao seu conteúdo ideológico – ao serviço dos sistemas de valores do seu carácter nacional, religioso e político.

Assim, muitos representantes das elites do Oriente, tendo recebido formação ocidental superior, regressam às suas pátrias equipados com conhecimentos e metodologias técnicas importantes, e aplicam estes conhecimentos no reforço da potência dos próprios sistemas nacionais. Deste modo, em vez da aproximação, esperada pelos liberais optimistas, entre civilizações, produz-se o armamento de alguns regimes “arcaicos”, “tradicionalistas” com novíssimas tecnologias, o que faz a confrontação civilizacional ainda mais aguda.

A esta penetrante análise pode juntar-se a consideração de que a maior parte dos intelectuais ocidentais eminentes, homens de cultura, personalidades criadoras, foram por si mesmas, em grau notável, não conformistas e anti-sistema, e por consequência, gente do Oriente, e, estudando os génios do Ocidente, apenas se reforçaram nas suas próprias posições críticas.

Um exemplo característico desta via é o principal pensador da revolução iraniana, o filósofo Ali Shariati. Estudou em Paris, assimilou Heidegger e Guénon, e também alguns autores neo-marxistas, e gradualmente chegou à convicção da necessidade duma síntese conservativo-revolucionária entre o Islão místico-shiita revolucionário, o socialismo e o existencialismo. Nomeadamente, Shariati pôde atrair à revolução a elite intelectual e a juventude iranianas, as quais, em caso contrário, dificilmente identificariam os seus ideais com o lúgubre tradicionalismo dos mullah. Este exemplo é especialmente importante, pois fala-se de revolução bem sucedida, concluída com a completa vitória do regime conservativo-revolucionário, anti-ocidental e anti-globalização.

Pelo mesmo caminho foram os russos eslavófilos, adoptando dos filósofos alemães (Herder, Fichte, Hegel) diversos modelos, que puseram na base da sua convicção nacional tipicamente russa. Este também é o método dos actuais eurasianos, criadores e re-elaboradores, nos interesses da Rússia, de doutrinas não conformistas das europeias “novas direitas” e “novas esquerdas”.



Escrito por Dídimo às 18h07
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O Eurasianismo: a“nova” Geopolítica russa Parte II

Um dos herdeiros das ideias geopolíticas e geoestratégicas de Shtemenko foi o Marechal N. V. Ogarkov. Foi ele o responsável pela montagem da operação contra a Checoslováquia, em que os serviços de informações da OTAN foram confundidos com uma contra-informação excelentemente conduzida, e também pela adopção de uma opção doutrinária de guerra convencional na Europa, como objectivo de planeamento e desenvolvimento militar.
Grande parte deste novo alento do Eurasianismo deve-se ao seu principal ideólogo, Alexander Dugin. Apesar do seu passado obscuro (antigo membro duma organização radical anti-semita e, posteriormente, da Revolução Conservadora racista, Dugin é hoje considerado o principal geopolítico russo e conselheiro de assuntos internacionais de várias figuras proeminentes da Duma, nomeadamente o seu “speaker”, Gennady Seleznev. As suas ideias têm influenciado o líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, e outros altos dignitários. O Partido Eurasiano foi fundado por Dugin em Maio de 2002, supostamente com apoio organizacional e financeiro do Presidente Putin.
O Eurasianismo ganhou rapidamente importância nos meios da política externa russa e, mais significativo ainda, é cada vez mais evidente na conduta daquela política pelo Presidente Putin. Dugin adaptou as teorias tradicionais de Mahan e MacKinder e defende uma luta pelo domínio internacional entre as potências terrestres – personificadas na Rússia – e as potências marítimas – principalmente os EUA e o Reino Unido. Como resultado, Dugin crê que os interesses estratégicos da Rússia devem ser orientados de um modo anti-ocidental e para a criação de espaço Eurasiático de domínio russo. Por outras palavras, a Rússia não poderá subsistir fora da sua essência imperial, em virtude da sua localização geográfica e do seu caminho histórico.
“O novo império eurasiano será construído no princípio fundamental do inimigo comum: a rejeição do ‘Atlantismo”, controlo estratégico dos EUA e na recusa em aceitar valores liberais para nos dominar. Este impulso civilizacional comum será a base de uma união política e estratégica”. Dada a presente situação internacional pouco influente da Rússia, Dugin reforça a necessidade de construir alianças que sirvam para aumentar o domínio político e económico.
Assim, põe ênfase num eixo Moscovo-Teerão e na criação de uma zona de influência iraniana no Médio Oriente. Na Europa, advoga um eixo Moscovo-Berlim, que vê como essencial para a criação de um “cordão sanitário” contra a influência ocidental no antigo bloco soviético.
Nos seus esforços para manter os EUA longe da região do Cáspio, o Irão encontrou um aliado inesperado na Rússia. Ambos puseram temporariamente as suas divergências de lado, para fazer frente às actividades americanas na área. A aliança russo-iraniana pode aliás considerar-se um dos mais importantes factos geopolíticos do pós-guerra fria. Para a Rússia, uma relação estrita com o Irão pode considerar-se como uma reacção à expansão da NATO para a Europa Oriental.
O fornecimento de material militar convencional e de tecnologia nuclear russa ao Irão é um dos aspectos fulcrais desta aliança, já que muitos poucos países estão interessados em fornecer armas ao regime dos “ayatollahs”. O Irão confia na Rússia como fornecedor de armamento, dado não existirem muitos países que o queiram fazer; a Rússia também vê vantagens e lucros no fornecimento de armamento, nuclear inclusive, ao Irão.
A doutrina consensual da “vizinhança próxima” define que a Rússia quer manter um papel político, económico e estratégico preponderante nas ex-repúblicas da URSS, legitimando uma intervenção militar, se necessário. Contudo, a incapacidade da Rússia implementar as necessárias reformas nas suas Forças Armadas e na sua economia, em conjunto com a hostilidade com que a sua presença é vista, limita as suas possibilidades de cooperação e faz diminuir a sua influência, em especial no Cáucaso, em detrimento dos EUA.
A Rússia vê assim a sua posição na região ameaçada pela expansão militar americana e da NATO, bem como pelos seus próprios problemas internos (a guerra na Tchechénia fez com que as relações com a Geórgia, a quem acusa abertamente de abrigar terroristas tchetchenos, se deteriorasse muito). Para contrabalançar esta situação, propôs uma cooperação triangular com a China e com a Índia e através da Organização de Cooperação de Xangai (com Cazaquistão, Quirguizistão e Tadjiquistão).
As maiores preocupações da Rússia dizem respeito ao controlo das rotas de exportação dos recursos energéticos. O maior objectivo de Moscovo é assegurar que uma parte significativa dos recursos energéticos do Cáspio seja transportada pelo sistema russo de oleodutos para o Mar Negro e, daí, para a Europa. Porém, o sistema existente de oleodutos e gasodutos da era soviética é considerado como obsoleto, feitos com materiais de qualidade duvidosa e com manutenção de má qualidade técnica, que se estão a deteriorar com o tempo.
As novas repúblicas procuram por isso outras opções para se distanciar e não depender da Rússia, e serem capazes de alcançar mercados diversificados. Para tentar manter a sua influência nas exportações dos produtos energéticos, a Rússia apoia apenas oleodutos que passem através do seu território.
Todavia, as tentativas russas para retardar os projectos de desenvolvimento liderados por outras potências, levaram ao estudo de rotas alternativas para levar os recursos até aos mercados, prejudicando a posição da Rússia como potência dominante na região e fazendo-a perder o controlo sobre os recursos energéticos da região e do seu transporte.
Para a Rússia, os alvos geopolíticos primários para a subordinação política parecem ser o Cazaquistão e o Azerbaijão. A subordinação deste último ajudaria a “selar” a Ásia Central do Ocidente, especialmente da Turquia.
O Azerbaijão, encorajado pela Turquia e pelos EUA, rejeitou os pedidos russos para a manutenção de bases militares no seu território e desafiou também as exigências daquele país para um único oleoduto com terminal no porto russo de Novorossiysk, no Mar Negro.
A vulnerabilidade étnica do Cazaquistão (cerca de 40% da população é russa) torna quase impossível uma confrontação aberta com Moscovo, que pode também explorar o receio do Cazaquistão sobre o crescente dinamismo da China.
Para tentar diminuir as iniciativas unilaterais de desenvolvimento das novas repúblicas, nomeadamente as duas referidas atrás, tem utilizado também a incerteza quanto ao regime legal do Mar Cáspio.
Ao bloquear ou atrasar novos projectos de oleodutos, a Rússia conseguiu vencer praticamente todos os negócios energéticos, com investimentos pequenos. Porém, o actual sistema de oleodutos não possui a capacidade para o aumento de produção que se prevê para o Cazaquistão e para o Azerbaijão e, se tiverem de construir mais, a Rússia gostaria que passassem por território seu.
No Cáucaso, todos os conflitos têm também a ver, pelo menos parcialmente, com o petróleo. A Rússia continua a ver o Azerbaijão como parte do seu império e considera a Geórgia como a chave do Cáucaso meridional. Contudo, a maior ameaça à estabilidade e aos interesses petrolíferos ocidentais no Cáucaso, deriva da guerra na Tchetchénia.
A Tchetchénia era uma região autónoma gozando já de uma larga autonomia, quando declarou unilateralmente a sua independência em 1994. A Rússia decidiu resolver o assunto pela força por duas razões principais: em primeiro lugar porque, se a Tchetchénia fosse autorizada a sair da Federação Russa, seria um perigoso antecedente que outras repúblicas predominantemente islâmicas do Norte do Cáucaso (Tcherkessia, Dagestão, Kabardin-Balkar, etc.) poderiam querer seguir; em segundo lugar, a Tchetchénia é um eixo fundamental da rede de oleodutos vindos do Cáspio.
Se a materialização dos planos do oleoduto para Oeste falhar, todo o petróleo do Azerbaijão irá continuar a ser transportado pelo único oleoduto existente para o mar Negro, e esse atravessa a Tchetchénia. Se a Rússia quiser lucrar com o aumento de produção no Azerbaijão, tem de manter o controlo da república a todo o custo. Grozny, capital da Tchetchénia, é o centro de uma importante rede de oleodutos que liga a Sibéria, o Cazaquistão, o Cáspio e Novorossiysk. Para finalizar, o que torna Dugin notório e preocupante é que o seu pensamento faz lembrar, em certos aspectos, Hitler: fala sobre capitalismo, baseado numa combinação de nacionalismo e socialismo. As suas teorias foram banidas durante a época soviética pelas suas ligações ao Nazismo, mas são hoje aceites sem relutância pelo Partido Comunista.
Mesmo assim, o Eurasianismo ganhou rapidamente importância nos meios da política externa russa e, mais significativo ainda, é cada vez mais evidente na conduta daquela política pelo Presidente Putin.



Escrito por Dídimo às 18h23
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O Eurasianismo: a“nova” Geopolítica russa Parte I

Em grandes linhas, existem actualmente duas aproximações quanto às opções geopolíticas da Rússia: os internacionalistas liberais ou “ocidentalizadores” (zapadniki) e os eurasianistas.

Os primeiros (Gorbatchev, Kozyrev, Yeltsin, Trenin, etc.) crêem que os valores ocidentais do pluralismo e da democracia são universais e aplicáveis à Rússia. Os segundos (Dugin, Zhirinovsky, Zyuganov, Solzhenitsyn, etc.) têm linhas ideológicas nacionalistas e patrióticas que acreditam que, devido às particularidades geográficas, históricas, culturais e mesmo psicológicas, a Rússia não pode ser classificada como Ocidental ou Oriental, sendo um Estado forte e dominante na Eurásia.
O Eurasianismo conseguiu reconciliar filosofias muitas vezes contraditórias como o comunismo, a religião ortodoxa e o fundamentalismo nacionalista.
Desde que Vladimir Putin assumiu a presidência da Rússia, em Dezembro de 1999, a política externa de Moscovo alterou o seu rumo. A sua nova aproximação baseia-se no Eurasianismo, uma obscura e velha moldura ideológica que emergiu agora como uma força maioritária na política russa.
Na história do mundo, existem, em competição constante, duas aproximações às noções de espaço e terreno – a terrestre e a marítima. Na História antiga, as potências marítimas que se tornaram em símbolos da “civilização marítima” foram a Fenícia e Cartago. O império terrestre que se lhes opunha era Roma. As Guerras Púnicas foram a imagem mais clara da oposição “terra-mar”.
Mais modernamente, a Grã-Bretanha tornou-se o “pólo” marítimo, sendo posteriormente substituído pelos EUA. Tal como a Fenícia, a Grã-Bretanha utilizou o comércio marítimo e a colonização das regiões costeiras como o seu instrumento básico de domínio. Criaram um padrão especial de civilização, mercantil e capitalista, baseada acima de tudo nos interesses materiais e nos princípios do liberalismo económico. Portanto, apesar de todas as variações históricas possíveis, pode dizer-se que a generalidade das civilizações marítimas tem estado sempre ligada ao primado da economia sobre a política.

Por seu lado, Roma representava uma amostra de uma estrutura de tempo de guerra, autoritária, baseada no controlo civil e administrativo, no primado da política sobre a economia. É um exemplo de um tipo de colonização puramente continental, com a sua penetração profunda no continente e assimilação dos povos conquistados, automaticamente romanizados após a conquista. Para os eurasianistas, na História moderna, os seus sucessores são os Impérios Russo, Austro-Húngaro e a Alemanha imperial.
Contra o “Atlantismo”, personificando o primado do individualismo, liberalismo económico e democracia protestante, ergue-se o “Eurasianismo”, personificando princípios de autoritarismo, hierarquia e o estabelecimento de um comunitarismo, sobrepondo-se às preocupações de índole individualista e económica.
Pode-se recuar na geopolítica russa até ao movimento eslavófilo do século XIX. Nesta época, o Eurasianismo tentou sobrepor-se às diferenças entre as tendências reformistas pró-ocidentais e os czaristas eslavófilos. O papel ímpar da Rússia era juntar a rica diversidade da Eurásia numa “terceira via”, consistente com a cultura e as tradições da Ortodoxia e da Rússia.
Estas ideias acerca da geopolítica da Eurásia e do destino do Império Russo, foram retomadas no período a seguir à 1.ª Guerra Mundial pelo etnólogo e filólogo Nikolai S. Trubetskoy, nobre russo branco, pelo historiador Peter Savitsky, pelo teólogo ortodoxo G.V. Florovsky e, posteriormente, pelo geógrafo, historiador e filósofo Lev Gumilev, defendendo a luta cultural e política entre o Ocidente e o distinto sub-continente da Eurásia, liderado pela Rússia.
Gumilev foi o criador da “teoria da etnogénese”, pela qual as nações são originárias da regularidade do desenvolvimento da sociedade, e da “teoria da paixão”, a capacidade humana para se sacrificar em prol de objectivos ideológicos. Esteve 16 anos presos no tempo de Estaline, combateu na 2.ª Guerra Mundial, esteve num campo de concentração nazi e voltou a cumprir uma sentença de 10 anos no Gulag, por actividades contra a ideologia marxista-leninista.
Aqueles teóricos da geopolítica eurasiana analisaram com profundidade e atenção os impérios de Gengis Khan, Mongol e Otomano, tendo-se encontrado várias vezes em Praga com Karl Haushofer.
Baseado nas ideias de MacKinder, o Eurasianismo procura estabelecer a identidade ímpar da Rússia, distinta da Ocidental e foca a sua atenção para Sul e Leste, sonhando numa fusão entre as populações ortodoxas e muçulmanas. Rejeita categoricamente o projecto do Czar Pedro para “europeizar” a Rússia, mas os termos em que o país era idealizado eram os de um império europeu, pela simples circunstância que consistia em territórios, a maioria dos quais se localizavam na Ásia, em que um grupo nacional dominava outras nacionalidades subordinadas.
Defendia que a Rússia era claramente não europeia porque a vasta região ocupada, apesar de situada entre os dois continentes – Europa e Ásia - , era geográfica e, logo, objectivamente separada de ambos. Era um continente em si mesmo, denominado Eurásia; além disso, a cultura russa tinha sido maioritariamente moldada por influências vindas da Ásia.
Durante a 1.ª Guerra Mundial, surgiram os primeiros dilemas e ambiguidades, quando a Rússia se aliou à Grã-Bretanha, à França e aos EUA, com o intuito de libertar os seus “irmãos eslavos” do domínio turco, começando a lutar contra os seus aliados geopolíticos naturais – Alemanha e Áustria –, mas também mergulhando numa revolução e guerra civil catastróficas.
A revolução de 1917 terminou com a existência formal do Império Russo, e Trubetskoy tentou adaptar o seu pensamento ao novo estado de coisas. Os russos, antes considerados como os “donos e proprietários” de todo o território, passaram a ser “um povo entre outros” que partilhavam a autoridade. O conceito de separatismo não era aceitável para Trubetskoy, que insistia na indivisibilidade da grande região que correspondia à Eurásia, uma ideia de globalidade geográfica, económica e étnica integral, distinta quer da Europa, quer da Ásia.
Segundo Savitsky, a Eurásia tinha sido modelada pela Natureza, que tinha condicionado e determinado os movimentos históricos e a interpenetração dos seus povos, cujo resultado tinha sido a criação de um único Estado. Devido à unidade da região derivar da Natureza, possuía a qualidade transcendente dessa mesma Natureza. Trubetskoy afirmava que “o substrato nacional do antigo Império Russo e actual URSS, só pode ser a totalidade dos povos que habitam este Estado, tido como uma nação multiétnica peculiar e que, como tal, possuía o seu próprio nacionalismo.
Chamamos a essa nação Eurasiana, o seu território Eurásia e o seu nacionalismo “Eurasianismo.” Para Dugin, o principal ideólogo eurasianista da actualidade, a liderança de Lenine tinha um substrato eurasiano pois, contrariamente à doutrina marxista, preservou a grande unidade do espaço eurasiano do Império Russo.
Por seu lado, Trotsky insistia na exportação da revolução, na sua mundialização, e considerava a URSS como algo efémero e transitório, algo que desapareceria perante a vitória planetária do comunismo; as suas ideias traziam, por isso, a marca do atlantismo! Para o mesmo autor, “a grande catástrofe eurasiana foi a agressão de Hitler contra a URSS. Após a guerra fratricida e terrível entre dois países geopolítica, espiritual e metafisicamente chegados, a vitória da URSS foi de facto equivalente a uma derrota.
Apesar da “guerra fria” ser primária e fundamentalmente sobre ideologias e não sobre geopolítica – alguns autores chamam-lhe “geopolítica ideológica” –, a Geopolítica desenvolvida pelos pensadores europeus do final do século XIX foi uma matéria importante para Estaline. Imediatamente após a derrota alemã, começou a imaginar um novo projecto geopolítico, o Pacto de Varsóvia, para integrar os países da Europa de Leste na esfera soviética.
Desde o final da 2.ª Guerra Mundial, uma figura chave na geopolítica soviética foi o General Sergey M. Shtemenko, chegando a ser, durante os anos 60″s, comandante das forças armadas do Pacto de Varsóvia e Chefe do Estado-Maior General da URSS. Nos seus planos estratégicos, bem como nos do General Gorshkov, estava, desde 1948, a penetração económico-cultural no Afeganistão, afirmando que aquele país tinha um papel geopolítico especial, permitindo o acesso soviético ao Índico.
Khrutschev tinha conceitos geoestratégicos exclusivamente baseados no emprego de mísseis intercontinentais, em detrimento das outras armas. Estava preocupado com a América Latina e insistia no conceito de “guerra nuclear intercontinental relâmpago”. Ao contrário, Shtemenko já anteriormente tinha alertado que não seria sensato basear a segurança da URSS apenas em mísseis balísticos intercontinentais.



Escrito por Dídimo às 18h23
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Declaração de Princípios da International Third Position

A International Third Position é um movimento espiritual com uma visão própria do mundo, que rejeita a separação entre Esquerda e Direita, Socialismo e Capitalismo, imposta pelo pensamento moderno, a povos e culturas. Baseando-se num conhecimento profundo da natureza humana e dos seus interesses, a Third Position não procura um centrismo inviável, mas sim um modo de pensamento e acção que verdadeiramente transcenda os ódios estéreis do mundo moderno. A Third Position é, portanto, o credo político do século XXI.
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1. PRIMAZIA DO ESPÍRITO
É uma parte integral da nossa tradição política que o Homem é um complexo de matéria e espírito, e que a primazia está no espírito. Sem uma completa revolução espiritual – um método de purificação e melhoramento assumido pelo indivíduo durante toda a sua vida – os nossos militantes não se poderão diferenciar dos que são responsáveis pelos horrores do mundo moderno, nem daqueles que agem sob um ponto de vista puramente materialista da concepção da Vida e da História. A Third Position acredita que uma Revolução Nacional a nível mundial só pode ser concretizada pela moldagem de um Homem Novo, um militante que aja de acordo com o que diz. Este Homem Novo deve abraçar o nosso ideal de tal forma que possa agir e fazer propaganda por si próprio na comunidade onde vive e trabalha, em prol do movimento. Acreditamos igualmente que o esplendor da Europa, nas suas vertentes histórica e cultural, tem as suas raízes na doutrina e prática da Fé Cristã. Se a Europa quiser de facto recuperar o sentido de Destino e de Missão que a caracterizou, terá que regressar à Fé, com sinceridade e do coração. Na mesma medida em que cada indivíduo consiga desenvolver as suas qualidades espirituais, a Europa conseguirá mover-se, em direcção a um Novo Imperium.
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2. ORDEM MORAL
Uma vez que a decadência do mundo moderno é alicerçado na imoralidade, torna-se óbvio que um mundo regenerado só pode ser construído sob uma Ordem Moral e padrões de vida Cristãos. O Third Position acredita que é vital que as pessoas compreendam que, ao contrário do que é propagado pelos mass-media da sociedade contemporânea, existe Certo e Errado, Verdade e Mentira, Bom e Mau, e não um conjunto de opiniões materialistas de valor idêntico. Uma Ordem Moral, para ter um significado real, tem que ser fundada segundo o imutável princípio de que apenas a Verdade tem direitos. Sendo a Família o elemento primário e centro de qualquer sociedade sã, a sua força e unidade são essenciais para a estabilidade, felicidade e desenvolvimento da Nação em todos os aspectos, materiais e espirituais. Por esta razão, o Third Position opõe-se a qualquer política que procure restringir, minar ou destruir de qualquer forma a vida em Família. Acreditamos que sociedades sãs e famílias volumosas caminham lado-a-lado; consequentemente, acreditamos que os Estados têm o dever de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para instituir as famílias volumosas como uma norma da nossa sociedade. O Third Position assume-se totalmente contra a "legalização" do Aborto, Controlo Artificial da Gravidez, Eutanásia, Divórcio, Homossexualidade, Experimentações Genéticas em Humanos, e Vivissecção, já que contrariam a Lei de Deus e a Verdade Objectiva da maneira mais grosseira, e porque negam os princípios de Vida que o Third Position assume como ideologia e Modo de Vida. O Third Position considera igualmente que para esta Ordem Moral tomar vida, é crucial que às novas gerações, assim como às futuras, seja ensinado não só o conhecimento contido nos livros, mas também o caminho do auto-sacrifício e perfeição espiritual, que conduzem ao desenvolvimento de indivíduos virtuosos e honrados. Deste modo, desenvolveremos um povo qualitativamente superior, em todos os aspectos, à crescente horda que a "educação" da sociedade contemporânea nos insiste em impor.
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3. APOSIÇÃO AO MATERIALISMO
A Revolução Francesa de 1789 foi o primeiro acontecimento a impulsionar o materialismo para um cenário mundial. Nos dois séculos seguintes, esta tendência sistemática para negar na teoria e na prática a realidade da Alma e do Espírito, cresceu nas suas diversas formas, ao ponto de hoje ameaçar cobrir todo o globo. O Materialismo, na sua guerra contra o Espírito, tem tomado diversas formas: uns têm promovido os seus objectivos com grande subtileza, enquanto outros têm-se caracterizado por uma alarmante falta de arte, mas ambos têm contribuído, com maior ou menor grandeza, para o crescente declínio da Humanidade. As formas que, no nosso tempo, têm provocado mais estragos são: Maçonaria, Liberalismo, Niilismo, Capitalismo, Socialismo, Marxismo, Imperialismo, Anarquismo, Modernismo e New Age. Cada um destes credos - materialistas de base - são filosoficamente errados e desacreditados na prática. Mais, o Third Position condena-os sem reserva, e afirma que a oposição a todas as formas de Materialismo é uma posição central para a nossa ideologia.
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4. SIONISMO E POVO DA PALESTINA
O Sionismo como movimento político organizado tem apenas um século de idade, o que não o impediu de construir uma estrutura de poder de proporções colossais que envolve todo o globo. Esta estrutura inclui não só o regime ilegal de Israel, estabelecido na terra roubada da Palestina, mas também as bases de poder que os sionistas vêm construindo na esfera da Política, Economia e nos Media, sobretudo nos Estados Unidos e Europa. É escusado dizer que toda esta estrutura existe apenas para servir e expandir os interesses do Judaísmo Internacional, sendo que este objectivo só pode ser concretizado às custas das populações que aos poucos vão perdendo o controle dos seus países. Na Palestina, o domínio Sionista toma hoje uma pública e brutal forma, enquanto no Ocidente a tendência tem sido para métodos mais subtis; os resultados, no entanto, são os mesmos. Enquanto o colossal império Sionista se desenvolve, às nossas nações é negado o direito à auto-determinação. Opomo-nos firmemente a esta situação, ao imperialismo político, económico e territorial do movimento Sionista, e proclamamos que todas os povos têm o direito de escolherem o seu destino, sem molestação directa ou indirecta do poder Sionista. O Third Position rejeita também o regime fantoche de Arafat, que foi estabelecido sob o comando da Nova Ordem Mundial, e que através da sua própria existência nega a verdadeira natureza do Movimento Nacional Palestino: que a Palestina deve ser governada pelos seus verdadeiros habitantes, os Palestinos. Qualquer tratado ou manobra de diversão política que negue este princípio é necessariamente injusta, e deve ser combatido por todos os que acreditem e procurem a verdadeira Paz e Justiça.
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5. PODER POPULAR
É um princípio nuclear do Third Position que a harmonia e paz entre nações apenas pode ser alcançada se cada nação procurar construir uma unidade interior que transcenda os interesses sectoriais. Desde à muito que o destino das nações tem sido definido por partidos políticos corruptos e por tiranos ilegítimos; é hoje mais urgente que nunca que a integridade material e espiritual da Nação renasça. O Third Position acredita que esta unidade vital só pode ser alcançada pela implementação de um programa de descentralização, particularmente na esfera pública, onde o poder centralizado cresce dia para dia. A este programa de descentralização política chamamos de Poder Popular. Essencialmente é um sistema de auto-governação pelo povo, que começa na unidade viável de nível social mais baixo, e se estende a uma série de estruturas organicamente ligadas entre si. É através da participação directa de toda a população activa no processo de decisão - local, regional e nacional - que se efectivará a vontade popular, por meio de delegados devidamente nomeados. No entanto, cada indivíduo terá que agir de acordo com a Ordem Moral para que os seus desejos possam ser válidos; por outras palavras, as pessoas não definem a "verdade" através do voto - devem sim fazer com que as suas acções políticas estejam conforme a Verdade Objectiva. O Third Position considera assim que só é possível a construção de uma sociedade sã pelo reconhecimento das Leis de Deus e pelo direito da Verdade, e não por Constituições Políticas que têm sido introduzidas entre nós com o único objectivo de promover o Liberalismo e o Relativismo. É de prever que a clara enunciação de princípios morais pela Igreja irá ajudar o cidadão nas tarefas diárias, para benefício da Igreja, Sociedade e Indivíduo.
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6. PRESERVAÇÃO DO AMBIENTE
Uma pessoa sensata, em qualquer parte do mundo, deseja viver num meio-ambiente que seja belo e saudável ao mesmo tempo. Os membros do Third Position são originários de diferentes partes do globo, e estão empenhados em assegurar que todas as nações e culturas ajam em prol da preservação, beleza e balanço do mundo que todos partilhamos, para o benefício mútuo. No entanto, este desejo de equilíbrio não necessita da criação de poderosas estruturas e organismos policiais - como eco-fanáticos e New Agers - mas sim da criação de um real e genuíno entendimento entre as nações sobre as necessidades mútuas. A flora, fauna e cursos de água existem numa relação complexa e dinâmica, que permite à espécie humana viver e desenvolver-se. É claro que, no interesse de todos, deve-se preservar esta relação vivificante. Por esta razão, O Third Position afirma que irá actuar como um corpo para reter a destruição da nossa casa comum, quer esta se manifeste pelo egoísmo da empresa capitalista, ou pela mania de industrialização do Socialismo, ou pela ganância dos bancos internacionais, ou pelos senhores da Nova Ordem Mundial. O Homem tem a primazia sobre a Natureza por direito divino, mas essa primazia é de administração e supervisão, de modo a permitir às futuras gerações um melhor mundo do que aquele que herdámos. O Third Position acredita que numa ordem social equilibrada deve ser mantido um balanço entre Ruralismo e Urbanismo. O Ruralismo é de longe o mais saudável, pois possui tudo o que é essencial à vida, mas não anula a necessidade de existir um complemento urbano, constituído de lugares, vilas, cidades comerciais, centros de tecnologia avançada não poluentes, institutos industriais e de investigação, etc., que podem ser de grande benefício para a existência humana. Este balanço entre Ruralismo e Urbanismo é considerado central na visão do Mundo do Third Position, pois determina, directa ou indirectamente, muito do nosso programa.
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7. AMEAÇA BANCÁRIA
Nenhuma pessoa racional pode sinceramente negar que o dinheiro, o desejo de o possuir, e as contendas que à sua volta provoca, dominam o mundo moderno num grau nunca visto na História do Homem. Cada vez mais, o próprio direito de existência de indivíduos, famílias, comunidades, regiões, nações, e culturas, é determinado por uma "viabilidade económica", como se o dinheiro fosse o ponto mais importante nas questões essenciais da Vida. Por outras palavras, o dinheiro, que originalmente não era mais que um meio para facilitar a vida das pessoas numa sociedade cada vez mais complexa, tornou-se no Juiz de todas as coisas da Vida e da Sociedade. Uma tal perversão da Verdadeira Ordem das coisas trouxe, sem surpresa, miséria e terror numa escala grotesca: guerras cinicamente provocadas; fome; poluição; genocídio; pobreza; manipulação social; consumismo; suicídio juvenil; alcoolismo; famílias desintegradas. O Third Position considera que o dinheiro não é mais que um humilde servidor do Homem e da Sociedade, um servidor que deve ser utilizado com o objectivo do Bem Comum de todos, dentro e entre nações. Considera também que, uma vez que o Sistema Bancário moderno pratica hoje a usura mais refinada que o mundo já conheceu, deve ser levado em prática uma campanha para a sua destruição, com a consequente substituição por um sistema bancário de natureza social. Como resultado, todas as dívidas, sejam domésticas, nacionais ou internacionais, que tenham origem na usura, serão canceladas sem compensação, e os bancos serão obrigados a fazer restituições às suas desventuradas vítimas. O Third Position acredita que a alta Finança Internacional é um dos grandes males do mundo moderno, e é intrinsecamente hostil ao nosso programa.
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8. PROPRIEDADE
O Third Position acredita que há uma modalidade de posse - na indústria, na agricultura, e nos círculos domésticos - que vai além da injusta e desumana concentração forjada pelo Capitalismo e Socialismo, e que é viável na prática e perfeitamente natural, de acordo com a natureza humana. Esta alternativa é chamada de Distributismo, um conceito desenvolvido e popularizado por dois admiráveis escritores ingleses, Hilaire Belloc e G. K. Chesterton. Esta forma de possa ocorre cuma economia descentralizada na mais pequena unidade viável, e que resulta assim numa pletora de produtores e serviços em cooperação, pequenas empresas, oficinas de ofícios, estruturas corporativas, associações artesanais, pequenos arrendamentos, empresas familiares, herdades e quintas familiares. É um modo de propriedade que promove a iniciativa e criatividade individual, e que o faz nos limites e no sentido do Bem Comum. É a conjugação natural da Liberdade Individual com Justiça Social. Com o total fracasso do Socialismo, na sua burocracia e ineficácia contra-natura, e dada a exploração e desigualdade maciça que tem resultado do comércio livre capitalista, torna-se evidente que o Distributismo tornar-se-á no credo sócio-económico do século XXI.
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9. REVOLUÇÃO NACIONAL A NÍVEL MUNDIAL
É pelo facto de trabalharmos na construção de uma Nova Ordem Social, que reconhecemos que todos os povos e culturas que adiram aos princípios básicos do Third Position, devem em conjunto trabalhar num ambiente de mutuo suporte e confiança. A vitória de uma Revolução Nacional numa parte do mundo é uma vitória para todos nós, e cada membro filiado deve estar preparado para dar apoio moral, financeiro, e técnico, quando possível, se uma situação revolucionária suceder em qualquer país. Tacanhez e inacção num período em que a Ideologia de Uniformização Mundial caminha apressadamente para a vitória total é a completa negação de tudo o que professamos, e é por isso vigorosamente rejeitada pelo Third Position.


Escrito por Dídimo às 13h27
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Notas de reflexão crítica XIX - a propósito de José Carlos Mariátegui

Alphonse van Worden - 1750 AD






Gostaria de celebrar aqui neste espaço, ó meus insignes irmãos d’armas, a excelsa figura do marxista peruano José Carlos Mariátegui (1895 – 1930), a meu juízo um dos pensadores mais criativos no âmbito da esquerda, não só por suas ousadas idéias a respeito do desenvolvimento histórico peruano, enfatizando que o processo de construção do socialismo deve levar em conta as especificidades históricas da sociedade em que se insere, mas também por suas reflexões a propósito da natureza essencial do fenômeno revolucionário. Para tanto, esboçarei brevemente algumas de suas contribuições teóricas mais relevantes.

A fundamental importância que Mariátegui tem para o pensamento marxista reside, portanto, não somente em sua defesa de um processo socialista de cunho autóctone, correspondente às matrizes sócio-culturais da região em que se insere, mas também pelo aspecto decididamente messiânico, voluntarista e romântico que caracteriza sua concepção do marxismo não como tola pseudociência desprovida de fundamento epistemológico, mas como creación heroica da sociedade revolucionária.

Já à partida é mister sublinhar a influência axial que a obra do sociólogo francês Georges Sorel (1847 - 1922) exerceu sobre certos aspectos decisivos da reflexão mariateguiana. Em Réflexions sur la violence (1908), sua obra magna, Sorel estabelece uma distinção entre as noções de 'mito' (numa acepção político-ideológica do termo) e 'utopia' (ideal). O 'mito revolucionário' funcionaria como 'profecia auto-realizável', no sentido de não depender de fatores transcendentes para ser levado a efeito. O pensador peruano leva adiante tal concepção, conferindo-lhe um caráter mais radical e enfatizando decisivamente a profunda emoção messiânica inerente a qualquer processo revolucionário.

Mariátegui, por conseguinte, coloca-se inequivocamente na perspectiva de uma espécie de 'teologia messiânica' da ação revolucionária, onde, por um lado, o fervor religioso engendra a transformação política, e a consciência política, por outro, desperta a fé religiosa para a realidade concreta do Homem. Assim sendo, a meu juízo a dimensão da exaltação mística permanece até mesmo na construção da sociedade revolucionária, moldando seus horizontes. Examinemos a esse propósito algumas passagens da obra mariateguiana:


O mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama. A crise da civilização burguesa mostrou-se evidente desde o instante em que esta civilização constatou a carência de um mito.(...)

A burguesia já não tem mito algum. Tornou-se incrédula, cética e niilista. O mito liberal renascentista envelheceu demasiadamente. O proletariado tem um mito: a revolução social. Em direção a esse mito move-se com uma fé veemente e ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma. A inteligência burguesa entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria e da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. E uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, como afirmei em um artigo sobre Gandhi, é uma emoção religiosa. Os motivos religiosos deslocaram-se do céu para a terra. Não são divinos; são humanos, são sociais.


O Homem e o Mito (1925), publicado originalmente na revista Amauta, e depois na coletânea de ensaios El Alma Matinal.


Fica patente, a meu ver, a necessidade de a esquerda que ainda acalenta alguma pretensão transformativa assimilar, d'uma vez por todas, a lição ministrada há já tantos lustros por Mariátegui: : a 'revolução social' não é um fenômeno que se possa interpretar mediante uma 'análise científica', já que não pode ser compreendido à luz dos pressupostos epistemológicos e metodológicos da razão lógico-demonstrativa; ao contrário, afigura-se muito mais como fenômeno de cunho mítico-religioso, impermeável a abordagens racionalistas.

Há, portanto, que reconhecer a natureza essencialmente messiânica e mítica da Revolução, a dimensão mística, irracional, imprevisível e emocional presente intrinsecamente em todo processo revolucionário. A dimensão simbólico-messiânica é o alicerce em que se assenta o eixo do fenômeno político, que nada mais que uma versão laica do processo religioso. A ação revolucionária é, pois, Mito e Mística, é fome do Absoluto, mergulho nos báratros da imponderabilidade, salto temerário na escuridão inefável. Não há como negar, por exemplo, que o Islã militante hoje desempenha um papel revolucionário muito mais relevante que as modalidades tradicionais contempladas pelo pensamento marxista. A tipologia categorial estreita do marxismo não consegue, pois, compreender que um Osamah Bin Laden possa ser, como de fato o é, ao mesmo tempo um warlord medieval e um líder revolucionário contemporâneo, ou seja,uma figura onde o 'arcaico' e 'novo' estão entrelaçados de forma indissolúvel.

Outro aspecto que merece ser ressaltado em Mariátegui é sua ênfase na necessidade de se pensar um projeto socialista cujos alicerces correspondam ao ethos sócio-cultural de cada país; assim sendo, dava ele grande importâncias às tradições comunais no âmbito das civilizações indígenas pré-colombianas, cuja economia fundamentava-se no ayllu, agrupamento de famílias ligadas por laços de parentesco que usufruíam da propriedade coletiva da terra; e na 'marca', federação de ayllus que detinha a propriedade coletiva das águas, das pastagens e dos bosques. Há que salientar, pois, a perspicácia analítica de Mariátegui, ao perceber que as tradições de solidariedade e propriedade coletiva do comunismo primitivo incaico, as quais lograram sobreviver a séculos de opressão colonial e nacional, poderiam servir à perfeição como alicerces para a implantação de uma sociedade comunista moderna no Peru, sem necessidade de o país atravessar um longo e laborioso período de construção do capitalismo sob a égide da burguesia.

Mariátegui não advogava, é importante ressaltar, uma espécie de 'retorno' puro e simples a tais tradições e práticas, mas afirmava que o projeto político do comunismo peruano deveria nutrir-se de tais elementos como lastro cultural para as estruturas políticas e econômicas que sem dúvida o contexto contemporâneo demandaria.

Deve-se ressaltar, portanto, que tal concepção mariateguiana, malgrado heterodoxa e contrária a certa interpretação canônica e mecanicista da teoria marxista, não incorre no equívoco de uma romantização passadista da herança incaica; antes pelo contrário, uma vez que o pensador peruano salienta de modo insofismável que o contexto econômico de seu país nos primeiros lustros do século XX é de todo distinto da realidade em que se estabeleceram as estruturas econômicas do comunismo primitivo incaico, de modo que o processo revolucionário jamais poderia reproduzir artificialmente o modelo d'outrora, mas sim tomá-lo como base cultural autóctone para lastrear a implementação de uma sociedade comunista moderna no Peru.

Vale salientar, por fim, que a abordagem mariateguiana do processo revolucionário, até hoje sumamente ousada e inovadora, reveste-se de importância crucial para a compreensão dos movimentos contemporâneos de enfrentamento antiimperialista, cujo campo de batalha espraiou-se para dimensões que vão muito além da mera questão político-econômica, plasmando-se, de facto, como verdadeira ‘guerra cósmica’ entre visões de mundo rigorosamente antagônicas.


Escrito por Dídimo às 19h40
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O Homem e o Mito

José Carlos Mariátegui

 

 

            José Carlos Mariátegui (1895 – 1930) foi um dos maiores expoentes do socialismo latinoamericano. Pontuam em sua obra questões como o papel do indivíduo na história, o pensamento andino (particularmente Inca) e o lugar da religiosidade e do mito nos movimentos sociais. Tais aportes trazem uma reflexão singular e entusiástica a todos quantos se aproximam de sua obra.

            Em 1926 fundou a revista Amauta (Semeador, em quéchua). Dela reproduzo este texto, excerto de “El Alma Matinal”. Com a palavra o grande sociólogo peruano:

 

I

   

 

Todas as pesquisas da inteligência contemporânea sobre a crise mundial deságuam nesta unânime conclusão: a civilização burguesa sofre da ausência de um mito, de uma fé, de uma esperança. Ausência que e a expressão de sua falência material. A experiência racionalista teve a paradoxal eficiência de conduzir a humanidade à triste convicção de que a Razão não lhe pode oferecer nenhum caminho. O racionalismo serviu apenas para desacreditar a razão. Afirmou Mussolini que os demagogos sufocaram a idéia Liberdade. Mais exato é, sem dúvida, que os racionalistas sufocaram a idéia Razão. A Razão extirpou da alma da civilização burguesa os resíduos de seus antigos mitos. O homem ocidental colocou, durante algum tempo, no retábulo dos deuses mortos a Razão e a Ciência. Entretanto, nem a Razão nem a Ciência podem ser um mito. Nem a Razão nem a Ciência podem satisfazer toda a necessidade de infinito que há no homem. A própria Razão encarregou-se de demonstrar aos homens que ela não lhes basta. Que unicamente o Mito possui a preciosa virtude de preencher seu eu profundo.

A Razão e a Ciência corroeram e destruíram o prestígio das antigas religiões. Eucken, em seu livro sobre o sentido e o valor da vida, explica de maneira clara e certeira o mecanismo deste trabalho destruidor. As criações da ciência deram ao homem uma sensação nova de sua potencia. O homem, antes intimidado diante do sobrenatural, descobriu logo um exorbitante poder para corrigir e retificar a Natureza. Esta sensação desalojou de sua alma as raízes da velha metafísica.

Mas o homem, como a filosofia o define, é um animal metafísico. Não se vive fecundamente sem uma concepção metafísica da vida. O mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama. A crise da civilização burguesa mostrou-se evidente desde o instante em que esta civilização constatou a carência de um mito. Renan destacava melancolicamente, em tempos de orgulhoso positivismo, a decadência da religião e inquietava-se pelo futuro da civilização européia. "As pessoas religiosas escrevia vivem de uma sombra. Depois de nós, viver-se-á de quê?" A desolada interrogação aguarda ainda uma resposta.

A civilização burguesa caiu no ceticismo. A guerra parece ter reanimado os mitos da revolução liberal: a Liberdade, a Democracia, a Paz. Mas a burguesia aliada os sacrificou, em seguida, aos seus interesses e aos seus ressentimentos na Conferência de Versailles. O rejuvenescimento desses mitos serviu, entretanto, para que a revolução liberal se realizasse plenamente na Europa. Sua invocação condenou à morte os resquícios de feudalidade e de absolutismo que ainda sobrevivem na Europa Central, na Rússia e na Turquia. E, sobretudo, a guerra provou uma vez mais, de forma cabal e trágica, o valor do mito. Os povos responsáveis pela vitória foram os povos capazes de conceber um mito multitudinário.

 

 

II

 

O homem contemporâneo sente a peremptória necessidade de um mito. O ceticismo e infecundo e o homem não se conforma com a infecundidade. Uma exasperada e às vezes impotente "vontade de crer", tão aguda no homem pós-bélico, era já intensa e categórica no homem pré-bélico. Um poema de Henri Frank, A dança diante da arca, é o documento que tenho mais à mão a respeito do estado de ânimo da literatura dos últimos anos pré-bélicos. Neste poema lateja uma grande e profunda emoção. Por isto, sobretudo, quero citá-lo. Henri Frank nos diz da sua profunda "vontade de crer". Israelita, trata, primeiro, de reavivar na sua alma a fé no deus de Israel. A tentativa é vã. As palavras do Deus de seus pais soam estranhas nesta época. O poeta não as compreende. Declara-se surdo ao seu sentido. Homem moderno, o verbo do Sinai não pode captá-lo. A fé morta não e capaz de ressuscitar. Sobre ela pesam vinte séculos. “Israel morreu por haver dado um Deus ao mundo”. A voz do mundo moderno propõe seu mito fictício e precário: a Razão. Mas Henri Frank não pode aceitá-lo. “A Razão – diz – a razão não e o universo”.

 

 “La raison sans Dieu c'est la chambre sans lampe.”

 

O poeta parte em busca de Deus. Tem urgência em satisfazer sua sede de infinito e de eternidade. Mas a peregrinação é infrutífera. O peregrino queria contentar-se com a ilusão cotidiana. “Ah! sache franchement saisir de tout moment – la fuyante fumée et le suc éphemère”. Finalmente acredita que “a verdade é o entusiasmo sem esperança”. O homem traz sua verdade em si mesmo. 

 

“Si l'Arche est vide où tu pensais trouver la loi, rien n'est réel que ta danse.”

 

 

III

 

Os filósofos nos trazem uma verdade análoga à dos poetas. A filosofia contemporânea varreu o medíocre edifício positivista. Esclareceu e demarcou os modestos limites da razão. Formulou as atuais teorias do Mito e da Ação. É inútil, segundo estas teorias, procurar uma verdade absoluta. A verdade de hoje não será a verdade de amanhã. Uma verdade e válida apenas para uma época. Contentemo-nos com uma verdade relativa.

Mas esta linguagem relativista não e acessível e não e inteligível para o vulgo. O vulgo não sutiliza tanto. O homem resiste em seguir uma verdade enquanto não a crê absoluta e suprema. É inútil recomendar-lhe a excelência da fé, do mito e da ação. É preciso propor-lhe uma fé, um mito e uma ação. Onde encontrar o mito capaz de reanimar espiritualmente a ordem que sucumbe?

A pergunta exaspera a anarquia intelectual, a anarquia espiritual da civilização burguesa. Algumas almas lutam por restaurar a Idade Média e o ideal católico. Outras trabalham por um retorno ao Renascimento e ao ideal clássico. O fascismo, através da boca de seus teóricos, atribui-se uma mentalidade medieval e católica; crê representar o espírito da Contra-Reforma, embora, por outra parte, pretenda encarnar a idéia da Nação, idéia tipicamente liberal. A teorização parece comprazer-se com a invenção dos mais apurados sofismas. Mas todas as tentativas de ressuscitar mitos passados estão destinadas ao fracasso. Cada época quer ter uma intuição própria do mundo. Nada mais estéril que pretender reanimar um mito extinto. Jean R. Bloch, num artigo publicado na revista Europe, escreve, a tal respeito, palavras de profunda verdade. Na catedral de Chartres ouviu a voz maravilhosamente crédula da longínqua Idade Média. Mas adverte quanto e como essa voz e estranha às preocupações desta época.

“Seria uma loucura – escreve – pensar que a mesma fé repetiria o mesmo milagre. Buscai ao vosso redor, em alguma parte, uma mística nova, ativa, suscetível de milagres, apta a encher de esperança aos desgraçados, a suscitar mártires e a transformar o mundo com promessas de bondade e de virtude. Quando a tiverdes encontrado, designado, nomeado, não sereis absolutamente o mesmo homem”.

Ortega y Gasset fala da “alma desencantada”. Romain Rolland fala da “alma encantada”. Qual dos dois tem razão? Ambas as almas coexistem. A “alma desencantada” de Ortega y Gasset é a alma da decadente civilização burguesa. A “alma encantada” de Romain Rolland é a alma dos forjadores da nova civilização. Ortega y Gasset vê apenas o acaso, o crepúsculo, der Untergang. Romain Rolland vê a aurora, a alvorada, der Aurgang. O que mais nítida e claramente diferencia, nesta época, a burguesia e o proletariado e o mito. A burguesia já não tem mito algum. Tornou-se incrédula, cética e niilista. O mito liberal renascentista envelheceu demasiadamente. O proletariado tem um mito: a revolução social. Em direção a esse mito move-se com uma fé veemente e ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma. A inteligência burguesa entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria e da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, como afirmei num artigo sobre Gandhi, e uma emoção religiosa. Os motivos religiosos deslocaram-se do céu para a terra. Não são divinos; são humanos, são sociais.

Há algum tempo que se constata o caráter religioso, místico e metafísico do socialismo. Georges Sorel, um dos mais altos representantes do pensamento francês do século XX, dizia em suas Reflexões sobre a violência:

“Encontrou-se uma analogia entre a religião e o socialismo revolucionário, que se propõe a preparação e ainda a reconstrução do indivíduo para uma obra gigantesca. Mas Bergson nos ensinou que não somente a religião pode ocupar a região do eu profundo; os mitos revolucionários podem também ocupá-la com o mesmo título”.

 

Renan, como o mesmo Sorel lembra, referia-se à fé religiosa dos socialistas, constatando sua inexpugnabilidade a todo desalento. 

 

“A cada experiência frustrada, recomeçam. Não encontraram a solução: a encontrarão. Jamais os assalta a idéia de que a solução não exista. Eis aí sua força”.

 

            A mesma filosofia que nos mostra a necessidade do mito e da fé, torna-se incapaz geralmente de compreender a fé e o mito dos novos tempos. "Miséria da filosofia", como dizia Marx. Os profissionais da Inteligência não encontrarão o caminho da fé; o encontrarão as multidões. Aos filósofos caberá, mais tarde, codificar o pensamento que brote da grande gesta multitudinária. Acaso souberam os filósofos da decadência romana compreender a linguagem do cristianismo? A filosofia da decadência burguesa não pode ter melhor destino.



Escrito por Dídimo às 20h56
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Eleições Brasileiras em 2010.

 

 

As eleições brasileiras em 2010 não serão nada fáceis para quem quer um candidato forte e comprometido com o Brasil. Quem for mais conservador e tiver idéias diferenciadas das de nossa esquerda de sempre, pode ter sérios problemas quanto à em quem votar. Ou seja, só há candidatos, projetos ou bandeiras de esquerda nas próximas eleições.

 

Numa breve avaliação dos candidatos até agora colocados podemos dividi-los em duas classes, os governistas de esquerda e os não-governistas de esquerda, vejamos.

 

Entre os primeiros podemos listar: Ciro Gomes e Dilma Rousseff são governistas e se opõem entre si apenas pela vontade de ser o próximo ou próxima presidente. No segundo caso temos três personagens, dois do PSDB que são Aécio Neves e José Serra, e pelo PV, Marina Silva.

 

Poderíamos chamar Marina Silva de “a terceira candidata do governo” apesar das aparências. Parece que Marina rompeu com o governo e com o PT ao sair do primeiro e depois do segundo, mas as aparências podem enganar, todo cuidado com esse assunto é pouco.

 

E por que estou relacionando Aécio e Serra como candidatos de esquerda?

 

Aécio é claramente de esquerda, basta ver suas alianças em Minas e as conversas que tem tido com Ciro Gomes O PSDB é um partido historicamente de esquerda no país apesar de em algumas eleições anteriores ter adotado posições liberais, mas posições liberais não fazem alguém menos de esquerda veja a economia do governo Lula.

 

Serra apesar da aparência e da aliança com o DEMOCRATAS não pode ser visto como mais a direita, mesmo do que Lula. Suas posições intelectuais são afetadamente marxistas e seu trabalho teórico nos institutos que participou dentro e fora do Brasil provam isso.

 

Podemos, entretanto ser pragmáticos e avaliar os menos piores para encontrar alguém em quem votar. Nesse caso precisamos acreditar no que as pessoas dizem que vão fazer e não no que fizeram até aqui ou no que escreveram antes.

 

Se adotarmos tal posição ficamos meio indecisos entre dois candidatos improváveis entre si. De um lado Marina Silva que possui o mais nacionalista dos discursos, que não tem compromisso nem com o liberalismo econômico nem com o socialismo. Atualmente ela defende que a economia deve pensar tanto o social quanto o ambiental sendo duplamente sustentável, em relação à ambiência e ao homem. De outro lado José Serra, mas sabendo que deve pender pra um liberalismo privatista e ao mesmo tempo para a intervenção via órgãos reguladores.

 

Essas são as cartas que estão sobre a mesa. Muitas águas inda hão de correr nesse rio e novos personagens surgirão, mas nenhum que tenha força para mudar o presente quadro. Em breve escreveremos mais sobre o assunto e as possibilidades que teremos.



Escrito por Dídimo às 22h57
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É muito importante notar que toda a nossa historiografia tem pressupostos que vão muito além da simples história, rever esses pressupostos é fundamental, é o que Evola propõe abaixo:

 

Para uma Historiografia de Direita 

Reflexão de Julius Evola publicada na revista "Éxil", com tradução de Maria Bragança.

***

A propósito de considerações sobre o significado europeu que pode ser atribuído a Donoso Cortés, interessante figura de homem político e de pensador espanhol, cujas actividades se situam no período dos primeiros movimentos revolucionários e socialistas da Europa, Carl Schmitt, conhecido historiador alemão, salientou o seguinte: embora, desde então, as esquerdas tenham elaborado sistematicamente e aperfeiçoado uma historiografia própria como fundamento geral da sua acção destrutiva, nada de semelhante se verificou no campo oposto, isto é, no campo da Direita, no seio da qual tudo se reduziu a alguns ensaios esporádicos, que em nada são comparáveis, pela coerência, pelo radicalismo e pela largueza de horizontes, àquilo que, desde há muito, propõem o Marxismo e a Esquerda em semelhante domínio.
Esta observação é em grande parte justa. Com efeito, a única história, conhecida universalmente e com autoridade, à excepção da história de inspiração marxista, tem essencialmente natureza e origens liberais, iluministas e maçónicas. Refere-se às ideologias do Terceiro Estado, que apenas serviram para preparar o terreno aos movimentos radicalizantes de esquerda, já que os seus fundamentos são essencialmente antitradicionais. Uma historiografia de Direita espera ainda a vez de ser escrita: o que constitui um sinal de inferioridade em relação às ideologias e à acção agitadora das esquerdas. De modo mais particular, nem mesmo a história corrente, de orientação patriótica, pode suprir esta lacuna, pois, fora dos seus possíveis cambiantes nacionais e das evocações comovidas de acontecimentos e de figuras heróicas, ela própria se ressente, e em larga conta, das sugestões de um pensamento que não é de modo algum o pensamento de uma Direita, e, sobretudo, porque não pode suportar a comparação, quanto à largueza de horizontes, com a historiografia de esquerda.
Eis o ponto fundamental.
De facto, somos obrigados a reconhecer que a historiografia de esquerda soube abranger as dimensões essenciais da História: para lá dos conflitos e das perturbações políticas episódicas, para lá da história das nações, soube descobrir o processo geral e essencial que se realizou durante os últimos séculos, no sentido da passagem de um tipo de civilização e de sociedade a outro. Que a base da interpretação tenha sido, a esse respeito, constituída pela economia e pelas classes, isso nada tira à amplitude do programa que foi traçado por esta historiografia, a qual, como realidade essencial para lá do contingente e do particular, nos indica, no curso da História, o fim da civilização feudal e aristocrática, o aparecimento da civilização burguesa, liberal, capitalista e industrial, e, depois desta, o anúncio e o começo da realização de uma civilização socialista, marxista e, finalmente, comunista. Aqui, a revolução do Terceiro Estado e a do Quarto Estado são reconhecidas no seu encadeamento natural, causal e táctico. A ideia de processos pré-estabelecidos, para os quais, sem querer nem saber, contribuíram os egoísmos mais ou menos "sagrados" dos povos, as rivalidades e as ambições daqueles que pensaram "fazer a história" sem sair do domínio do particular, tal é a ideia que devemos tomar em consideração. Por isto estudamos as transformações de conjunto e a estrutura social e da civilização, que são o efeito directo do jogo das forças históricas, relegando com exactidão a história das nações para a simples fase "burguesa" do desenvolvimento geral: com efeito as ?nações? só apareceram na história, como sujeito desta, a partir da revolução do Terceiro Estado, e como sua consequência.
Comparada à historiografia de esquerda, a historiografia que é própria a outras tendências aparece pois superficial, episódica, a duas dimensões, até mesmo frívola. Uma historiografia de Direita deveria abranger os mesmos horizontes que a historiografia marxista, com a vontade de apreender o real e o essencial do processo histórico, que se desenrolou no curso dos últimos séculos, fora dos mitos, das superestruturas e também da crónica vulgar. Isto, naturalmente, invertendo os sinais e as perspectivas: isto é, vendo, nos processos essenciais e convergentes da história mais recente, não as fases de um progresso político e social, mas as de uma subversão geral. É evidente que as premissas económico-materialistas deveriam ser igualmente eliminadas, reconhecendo como simples ficções o homo oeconomicus e o presumível determinismo inexorável dos diversos sistemas da produção.
Forças bem mais vastas, profundas e complexas, agiram e agem na história. Quanto aos detalhes, o mito do "comunismo primordial" é também ele rejeitado por aí opor, para as civilizações que precederam as de tipo feudal e aristocrático, a ideia de organizações, de preferência baseadas num principio de pura autoridade espiritual, sacral e tradicional. Mas, à parte isto - repitamo-lo -, uma historiografia de Direita reconhecerá, não menos do que a de esquerda, a sucessão ou o encadeamento de fases distintas gerais e supranacionais, as quais conduziram regressivamente até à desordem e às perturbações actuais: tal será, para ela, a base de interpretação dos factos particulares e das mudanças, sem nunca deixar de estar atenta aos efeitos produzidos por estes últimos no quadro social.
É impossível indicar aqui, nem mesmo à força de exemplos, toda a fecundidade de um tal método e a luz insuspeitada que projectaria sobre muitos acontecimentos. Os conflitos político religiosos da Idade Média imperial, a constante acção cismática da França, as relações entre a Inglaterra e a Europa, o verdadeiro sentido das ?conquistas? da Revolução Francesa, e assim por diante, até episódios de interesse particular, a Itália como o rosto efectivo da revolta das comunas, o duplo aspecto do "Risorgimento" italiano, enquanto movimento nacional, accionado no entanto por ideologias do Terceiro Estado, o significado da Santa Aliança e os esforços de Metternich - o último grande europeu - , o significado da primeira guerra mundial com a acção de contragolpe das suas ideologias, a discriminação entre o positivo e o negativo nas revoluções nacionais, que se afirmaram ontem na Itália e na Alemanha, e assim por diante, até chegar, finalmente, a uma visão conforme à realidade nua das verdadeiras forças, hoje em luta pelo domínio do mundo: eis uma escolha de argumentos sugestivos, entre tantos outros, aos quais se poderá consagrar a historiografia de Direita, para assim revolucionar os pontos de vista que o maior número está habituado a ter em tudo isto pelo efeito de uma historiografia de orientações opostas, e para agir de modo esclarecedor.
Uma historiografia assim concebida, e visando portanto o universal, encontrar-se-ia de modo muito particular à altura dos tempos, se é verdade que, por efeito de processos objectivos irreversíveis, cada vez se perfilam mais, hoje em dia, agrupamentos que não são apenas constituídos por unidades étnicas e políticas, particulares e fechadas. Infelizmente, esta historiografia desejada corresponderia unicamente a um aumento de conhecimentos. No estado actual das coisas, só dificilmente poderíamos esperar dela uma eficácia também prática, na perspectiva de uma acção decidida, de uma luta global e inexorável contra as forças que estão quase a derrubar o pouco que resta da verdadeira tradição europeia. Seria preciso, com efeito, que existisse, como contrapartida, uma Internacional de Direita, organizada e munida de um poder comparável ao da Internacional comunista. Ora sabe-se infelizmente que, devido à carência de homens dotados de uma grande elevação espiritual e de uma autoridade suficiente, devido ainda à prevalência de interesses partidários e de pequenas ambições, devido também a uma falta de verdadeiros princípios, e sobretudo de uma falta de coragem intelectual, não foi possível, até agora, constituir um governo unitário de Direita, nem mesmo só na Itália, e só nos tempos recentes foi possível ver anunciarem-se iniciativas neste sentido.


Escrito por Dídimo às 02h06
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Newton da Costa

 

Grande filósofo e brasileiro

 

Esses dois predicados, grande filósofo de um lado e ao mesmo tempo brasileiro, sempre pareceram inconciliáveis, mas Newton da Costa os reúne com grande desfaçatez. Esse filósofo que tem preocupações filosóficas diversificadas, mas unidas por seu modo sistemático de tratá-los, a filosofia científica, escreve nas melhores revistas filosóficas do mundo sobre matemática, lógica, filosofia da lógica, verdade, filosofia da física e filosofia da matemática, sempre defendendo posições próprias e originais acerca dos assuntos que trata.

Passaremos a uma breve descrição de seu trabalho ao mesmo tempo profundo e claro como se pode ser navegando em águas tão agitadas e que aos olhos de alguns chegam mesmo a parecer turvas. Começaremos abordando o seu método. Que é a filosofia científica? Quem a faz? Como é feita?

O termo filosofia científica tem uma longa história no desenvolvimento da filosofia como um todo, mas para desvendá-lo em termos da acepção dacostiana não precisaremos ir muito longe. A primeira viagem que faremos será para a Viena da primeira metade do Século XX. Lá se reuniu o Círculo de Viena que tinha uma maneira particular de ver o mundo, a chamada Visão Científica. Quando Newton da Costa fala em filosofia científica tal termo remete ao tipo de trabalho de um famoso membro desse Grupo, Rudolf Carnap. Não que Newton da Costa seja um carnapiano, mas apenas que, assim como aquele filósofo Newton da Costa aplica o método científico à filosofia e acima de tudo, tem a atitude cientifica como seu modo de atuar filosoficamente.

Para tal conceito ficar ainda mais claro, mais uma visita histórica antes de passar as próprias palavras de Newton da Costa sobre o assunto. Nossa visita agora é a Polônia, a outro círculo, menos famoso, mas não menos importante, o Círculo de Varsóvia, ou Varsóvia-Lwow. Nesse Círculo desponta a figura de Alfred Tarski, que elabora uma filosofia da lógica em que se utiliza de todo o instrumental das ciências formais, a fim de elaborar uma definição precisa de Verdade. O uso dar ciências especiais, tais como a física e a matemática, na formulação da filosofia e do instrumental das ciências formais tais como modulados por Tarski, a fim de buscar solução aos problemas filosóficos, está entre as características da filosofia científica.

Mas, como a descreve o próprio Newton da Costa? Em um antigo denominado “Conceitualização da Filosofia Científica”, escrito originalmente em espanhol depois traduzido para o português e publicado na Revista Brasileira de Filosofia, o professor Newton, como é conhecido, esclarece os termos do que chamou por tal nome.

Filosofia Científica é descrita no artigo citado possuindo três características fundamentais; a primeira é que na formulação e na solução de problemas filosóficos de cunho científico o filósofo toma atitude idêntica à do cientista; depois que, todo conhecimento produzido nesses termos ou se refere à ciência ou se limita à prática da análise crítica, e por fim, que no seu labor cotidiano o filósofo-cientista deve adotar uma posição de total independência no tocante a sua pesquisa e qualquer outra, exceto a própria ciência, ressalva ainda que apesar de tais coisas parecerem um truísmo não são e são muitas vezes confundidas pelos filósofos em seu trabalho.

Alguns exemplos da filosofia científica em ação podem ser vistos nos já citados trabalhos de Tarski sobre o conceito de verdade, na teoria das descrições de Russell, nos estudos de Mach sobre a mecânica de Newton e nos trabalhos de Poincaré e Reichenbach.

O fim da filosofia científica é a objetividade, em última instância, e a racionalidade como instância mediadora. Para alcançar esses fins se utiliza de alguns métodos, o Professor Newton os descreve no artigo citado e os listamos a seguir. A análise semiótica, o recurso às ciências especiais, a exemplificação histórica e a elaboração de modelos hipotéticos. Para uma descrição de cada um deles remeto à leitura da introdução de um de seus textos fundamentais “Ensaio Sobre os Fundamentos da Lógica” em que o Professor Newton reproduz e amplia o artigo citado acima.

Utilizando, pois, a filosofia científica como pano de fundo e método o Professor Newton desenvolve estudos em lógica e filosofia da lógica que o levam a criação da lógica paraconsistente, que lhe dá renome internacional. Tal lógica derroga para situações determinadas o princípio de não-contradição, isso quer dizer, que no âmbito de um determinado domínio a contradição não trivializa o sistema. É trivial o sistema em que qualquer fórmula é teorema, antes do Professor Newton acreditava-se que todo sistema inconsistente era trivial, sua tese de doutorado “Sistemas formais inconsistentes” mostra que isso não é verdadeiro. É possível, pois, a partir daí, abordar problemas de  sistematização dedutiva de teorias que contêm contradição e estudar teorias empíricas que contenham postulados contraditórios(AJFO, 2006).

No âmbito da filosofia da ciência o Professor Newton discute então, outras coisas, o que é o conhecimento científico, e para defini-lo entra em outra de suas teorias originais e com projeção internacional, a teoria da quase-verdade ou da verdade pragmática. Nesta teoria promove uma generalização do esquema tarskiano de verdade para a verdade tal como descrita no pragmatismo principalmente por Peirce e James.

A quase-verdade é um conceito técnico complexo, mas que pode ser espelhado numa idéia mais ou menos simples, que é a seguinte: Ser quase-verdadeiro é ser verdadeiro em um sentido tarskiano no âmbito ou escopo de um determinado domínio, ou seja, ser quase-verdadeiro é em como se fosse verdadeiro no sentido correspondencial restrito a um domínio específico de objetos.

Para usar um exemplo de da Costa, a visão geocêntrica e quase-verdadeira, visto ser verdadeira no sentido correspondencial no escopo daquele que observa o céu a olho nu. Toda verdade é uma quase-verdade.

Como diz Otávio Bueno “uma sentença quase-verdadeira (numa estrutura parcial A) não é necessariamente verdadeira; ela é apenas verdadeira, por assim dizer, no domínio restrito de A”.

Há muito mais a ser visto em Newton da Costa. Por isso, encerro o presente texto oferecendo uma bibliografia básica para o entendimento das teorias desse grande filósofo brasileiro:

Ensaio sobre os fundamentos da lógica. Hucitec, 2008.

Sistemas Formais, inconsistentes. Ed. da UFPR, 1993.

Introdução a filosofia da matemática. Hucitec, 2008.

Lógica Indutiva e probabilidade. Hucitec, 2008.

Conhecimento Científico. Discurso Editorial, 1999.



Escrito por Dídimo às 12h32
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o perenialismO eM deZ passoS

Essa é uma lista de leitura que acredito ser uma boa introdução ao pensamento dos perenialistas. René Guénon não é um escritor "fácil", ao contrário de Frithjof Schuon, de leitura muito mais digerível, mas cuja escrita quase poética, se não embasada por uma boa compreensão do por vezes intragável Guénon, pode conduzir seus leitores a um maravilhamento freqüentemente ilusório, lendo sua metafísica como se se tratasse de religião.

Guénon é "onde tudo começou" e sua leitura é presumida pelos que continuam sua obra, mesmo que tenham divergido de algumas de suas conclusões (todos os links abaixo são para as versões integrais dos livros disponibilizadas gratuitamente em espanhol):


1ª leitura: "A crise do mundo moderno", de René Guénon.


Para saber o que há de errado com o pensamento, os valores e os ideais de nossa época.

2ª leitura:

Certifique-se de que possui uma razoável compreensão da metafísica platônica, aristotélica e neoplatônica. Não é necessário nem mesmo ler os originais: é suficiente a "História da Filosofia", de Giovanni Reale e Dario Antiseri, vol. I, capítulos:


"A religião pública e os mistérios órficos", páginas 16 a 19,
"A fundação da metafísica", itens 2.1 a 2.3, páginas 134 a 142.
"A metafísica", páginas 178 a 191.
de "O 'Uno' como princípio primeiro absoluto, produtor de si mesmo" até "Originalidade do pensamento plotiniano: a contemplação criadora", páginas 340 a 350.

Nessa leitura, preste especial atenção aos conceitos mais importantes: as idéias platônicas; hyle, eidos e categorias aristotélicas; e as hipóstases de Plotino.

3ª leitura: "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos", de René Guénon.


Somente até o 7º capítulo. O restante é muito importante, mas é a aplicação de conceitos que ficarão mais claros quando você chegar ao final da lista. Não desvie sua atenção para esse outros capítulos ainda.

4ª leitura: "Ciência Moderna e Sabedoria Tradicional", de Titus Burckhardt (versão online ou compactada para download).

Capítulos 1 a 4 somente.

5ª leitura: "O Esoterismo", de Luc Benoist.

De leitura bem mais fácil, funcionará como uma revisão do que já foi lido até agora, dando-lhe unidade e propósito e preparando para as leituras posteriores, muito mais difíceis. Não o recomendei como primeira leitura porque daria uma falsa impressão de estar falando de "religião", o mesmo erro que condeno na leitura precipitada de Schuon.

6ª leitura: "Sobre os anjos" (coletânea de trechos de livros de Guénon).

Inclui também livros que estão listados abaixo. A seleção e disposição dos trechos torna mais compreensível sua metafísica e cosmologia, apesar de muitos deles ainda permanecerem de difícil compreensão, sobretudo, para os que não têm intimidade com o assunto, os que se referem à cabala. Não se preocupe com isso e leia-o mesmo assim.

7ª leitura: "O homem e seu porvir segundo o Vedanta", de René Guénon.

Extremamente recomendável como preparo para a leitura do próximo.

8ª leitura: "Os estados múltiplos do ser", de René Guénon.

Considero a mais importante obra de Guénon, condensando a exposição da metafísica que embasou todas as grandes civilizações, com exceção do mundo moderno. Se na 1ª leitura ele aponta os desvios, aqui ele expõe o que falta para consertá-los.

Para ajudar a visualizar a cadeia do ser exposta no livro, um boa dica é que sua leitura seja acompanhada pela consulta a esses esquemas:

Ponto de vista macroscósmico e Ponto de vista microscósmico.

9ª leitura: "Morte, esoterismo e reencarnação", de Alexander J.

Assim como a 5ª leitura, permitirá rever tudo o que foi lido até agora, dando-lhe unidade e sentido.

10ª leitura: "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos", de René Guénon.

Do 8º ao último capítulo. Complementam a "Crise do Mundo Moderno", mas com muito maior profundidade, que agora pode ser melhor compreendida e aproveitada.


A partir de então, recomendo a leitura de toda a obra de Guénon em ordem cronológica, inclusive relendo seus livros que já constam acima. Somente então, recomendaria a leitura de Frithjof Schuon, especialmente seu "Unidade Transcedente das Religiões".
Publicado pelo Caio Rossi no Evanessências


Escrito por Dídimo às 18h01
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SOBRE O MODO DE ESTUDAR

Tomás de Aquino

Já que me pediste, frei João - irmão, para mim, caríssimo em Cristo -, que te indicasse o modo como se deve proceder para ir adquirindo o tesouro do conhecimento, devo dar-te a seguinte indicação: deves optar pelos riachos e não por entrar imediatamente no mar, pois o difícil deve ser atingido a partir do fácil. E, assim, eis o que te aconselho sobre como deve ser tua vida:

1. Exorto-te a ser tardo para falar e lento para ir ao locutório.

2. Abraça a pureza de consciência.

3. Não deixes de aplicar-te à oração.

4. Ama freqüentar tua cela, se queres ser conduzido à adega do vinho da sabedoria.

5. Mostra-te amável com todos, ou, pelo menos, esforça-te nesse sentido; mas, com ninguém permitas excesso de familiaridades, pois a excessiva familiaridade produz o desprezo e suscita ocasiões de atraso no estudo.

6. Não te metas em questões e ditos mundanos.

7. Evita, sobretudo, a dispersão intelectual.

8. Não descuides do seguimento do exemplo dos homens santos e honrados.

9. Não atentes a quem disse, mas ao que é dito com razão e isto, confia-o à memória.

10. Faz por entender o que lês e por certificar-te do que for duvidoso.

11. Esforça-te por abastecer o depósito de tua mente, como quem anseia por encher o máximo possível um cântaro.

12. Não busques o que está acima de teu alcance.

13. Segue as pegadas daquele santo Domingos que, enquanto teve vida, produziu folhas, flores e frutos na vinha do Senhor dos exércitos.

Se seguires estes conselhos, poderás atingir o que queres.

Saudações.

 

Tradução de Jean Laund.



Escrito por Dídimo às 02h45
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SEGUNDA-FEIRA 23/11/2009

9:00 às 10:30 – Palestras de abertura

Considerações sobre o papel do princípio de indução no construtivismo matemático de Poincaré
Prof. Draª Camila Jourdan

Propriedade, Verdade, e Compromisso Ontológico
Sérgio Ricardo Schultz (Doutorando PUC-Rio)

10:45 às 12:15 – Mesa 1

Problemas na aplicação de critérios de identidade a entes abstratos
Ana Maria Corrêa Moreira da Silva
Doutoranda em Filosofia – PUC-Rio

Considerações acerca do conceito de matéria intencional nas Investigações Lógicas de Husserl
Paulo Mendes Taddei
Doutorando em Filosofia – PPGF-UFRJ

O mundo e seus duplos – Os obstáculos do realismo de mundos possíveis na análise de contrafactuais
Pedro Mendes de Lemos
Mestrando em Filosofia – PUC-Rio

14:30 às 16 – Mesa 2

Uma apresentação de Richard Dedekind
Pedro Henrique Passos Carné
Mestrando em Filosofia – PUC-Rio

A fragilidade da relação entre teoria e experiência: Uma análise da subdeterminação
Nastassja Pugliese
Mestranda em Filosofia – PUC-Rio

Por que a tese da independência lógica das proposições elementares é tão problemática?
Marcos Silva
Doutorando em Filosofia – PUC-Rio

17:00 às 19:00 – Conferência

Nominalismo
Prof. Dr. Desidério Murcho (UFOP)
Prof. Dr. Oswaldo Chateaubriand Filho (PUC-Rio)

TERÇA-FEIRA 24/11/2009

9:00 às 11:00 – Mesa 3

Considerações sobre o juízo estético a partir do texto de Thierry de Duve, Kant depois de Duchamp
Alexandra de Almeida
Doutoranda em Filosofia – PUC-Rio

Relação entre Desinteresse e Universalidade no sentimento do belo à luz da Critica da Faculdade do Juízo
Júlia Casamasso Mattoso
Mestranda em Filosofia PUC-Rio

Arte em Schopenhauer: intuição estética e música
André Luiz Bentes
Mestrando em Filosofia – PUC-Rio.

Deleuze e John Ford: O faroeste e a verdade da imagem
Rodrigo Cazes Costa
Doutorando em Literatura Brasileira – PUC-Rio

11:15 às 12:15 – Palestra

Ironia, pátria da arte e da filosofia
Prof. Dr. Pedro Duarte

14:00 às 15:30 – Mesa 4

A hiper-ficcionalidade no pensamento de Derrida
Maria Continentino
Mestranda em Filosofia – PUC-Rio

O conceito de acontecimento em Gilles Deleuze
Angelica de Britto Pereira Pizarro
Doutoranda em Filosofia – PUC-Rio

A atenção e a intervenção da memória em Bergson
Pedro Bonfim Leal
Doutorando em Filosofia – PUC-Rio

16:00 às 17:30 – Mesa 5

A plástica besta loira
Felipe Gustavo Alves Moreira
Mestrando em filosofia – PUC-Rio

A Nomeação em Nietzsche
Tomás Mendonça da Silva Prado
Doutorando em Filosofia – PUC-Rio

Nietzsche, antigermanismo e cultura
Bernardo Carvalho Oliveira
Doutorando em Filosofia PUC-Rio

QUARTA-FEIRA 25/11/2009

9:00 às 10:00 – Palestra

O que é uma vida humana?
Prof. Dr. Mauricio Rocha – UERJ

10:15 às 11:45 – Mesa 6
É possível distinguir ética e moral na Ethica Nichomachea de Aristóteles?
Cláudia Maria Barbosa
Mestranda em Filosofia – PUC-Rio

Reflexões sobre a irracionalidade do mal
Fábio dos Santos Creder Lopes
Doutorando PUC-Rio

Enganar o outro para dentro da verdade? Kierkegaard e a comunicação existencial
Thiago Faria
Mestre em filosofia – PUC-Rio

14:00 às 16:00 – Mesa 7

Autoria e interpretação – a filosofia da composição no jazz
Marcelo Costa Pereira Caldas
Mestrando em Filosofia – PUC-Rio

Arte e liberdade – A constituição da obra literária pela relação do escritor com o leitor
Marcelo S. Norberto
Mestrando em Filosofia – PUC-Rio

Estudo preliminar sobre função autor – Foucault e Agamben
Daniel Simão Nascimento
Doutorando em Filosofia – PUC-Rio

Um comentário sobre a história e a política em Michel Foucault
Bruno Lorenzatto Parreira da Cruz
Mestrando em Filosofia – PUC-Rio

17:00 às 19:00 – Conferência

Proximidade, mas não coincidência: a herança foucaultiana de Giorgio Agamben
Prof. Dr. Cláudio Oliveira (UFF)
A propósito de “Introdução à política”, de Hannah Arendt.
Prof. Dr. Eduardo Jardim (PUC-Rio)

QUINTA-FEIRA 26/11/2009

9:00 às 10:00 – Conferência

Prof. Dr. Fernando Rodrigues (UFRJ)

10:15 às 12:15 – Mesa 8

O uso da dialética em Sócrates, Platão e Aristóteles.
Rafael Rodrigues Pereira
Doutorando em Filosofia PUC-Rio

Górgias e a poesia
Carlos Monteiro Junior
Mestrando em Filosofia PUC-Rio

A possibilidade da verdade em Górgias
Renata Renovato Martins
Mestranda em Filosofia – PUC-Rio

Ontologia e Existência na Antiguidade
Renato Matoso Brandão
Mestre em Filosofia – PUC-Rio

14:00 às 16:00– Mesa 9

Walter Benjamin. Tempo, Imagem, Apresentação
Ana Luiza Varella Franco
Doutoranda em filosofia– PUC-Rio

O tempo da ideia
Paula Padilha
Mestranda em Filosofia PUC-Rio

Do juízo à crítica em Walter Benjamin
Victor Naine de Almeida
Mestrando em Filosofia – PUC-Rio

Como contar
Beatriz Andreiuolo
Doutoranda – PUC-Rio

17:00 às 18 – Conferência

Escrita, Morte, Transmissão
Prof. Dr.ªJeanne Marie Gagnebin (PUC-SP e Unicamp)

SEXTA-FEIRA 27/11/2009

9:00 às 11:00 – Mesa 10

O “Cale-se” de Vilém Flusser
Lívia Jacob
Mestranda em Letras pela PUC-Rio

Pierre Duhem herdeiro da crise pyrrhoniènne do século XVII?
Rogério Soares da Costa
Doutorando em Filosofia

Descoberta e Invenção: notas sobre Ciência e Ceticismo
Gisele Secco
Doutoranda em Filosofia – PUC-Rio

Heisenberg, Schrödinger e a Filosofia Grega
Marieta Dantas
Doutoranda em Filosofia – PUC-Rio

11:15 às 12:15 – Conferência

Heisenberg e a ordenação da realidade
Prof. Dr. Antônio Augusto Passos Videira – UERJ

14:00 às 16:00 – Mesa 11

Desmundanização? Um estudo a partir da primeira seção da obra Ser e tempo, de Martin Heidegger
Bernardo Boelsums Barreto Sansevero
Doutorando em Filosofia – PUC-Rio

Obra de arte e desvendamento ontológico em Martin Heidegger
Ione Manzali
Mestranda em Filosofia – PUC-Rio

‘Idéias da Razão’ na Crítica da Razão Pura de Kant
Douglas Luiz Pereira
Doutorando PUC-Rio

As forças leibnizianas no microscópio: o “Specimen dynamicum”
Raquel Anna Sapunaru
Doutoranda em Filosofia – PUC-Rio

17:00 às 19:00 – Mesa especial com integrantes da Comissão Organizadora da SAF I


19:00 – Encerramento do evento - Lançamento da Revista Analógos IX



Escrito por Dídimo às 00h08
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Aleksandr Dugin: 'Geografia Sagrada' e Grande Síntese




A partir das primeiras décadas do século XX, numerosos autores e líderes políticos, provenientes de diversos países e contextos culturais (Corneliu Codreanu, Ernst Jünger, Julius Evola, Otto Strasser, Nikolai Ustrialov, Ernst Niekisch, Carl Schmitt, Giovanni Gentile, etc.) começaram a lançar os alicerces filosóficos, espirituais e políticos do que aqui denominaremos de GRANDE SÍNTESE, vale dizer, a ampla convergência entre as principais correntes de pensamento anticapitalistas, antiliberais e anti-burguesas, por um lado; e por outro, todas as tradições esotéricas (mormente as de cunho não-dualista) da revolta irracionalista contra a ‘Modernidade’ e a 'Sociedade Aberta' ao longo da História.

Tal panorama ideológico não constitui, claro está, um quadro estático, nem tampouco é possível estabelecer uma tipologia estanque para ele; amiúde há, com efeito, um constante intercâmbio entre diferentes matrizes filosóficas no seio de um mesmo autor, por exemplo, e até mesmo, em alguns casos, um caótico amálgama de vetores contraditórios. Entre os exemplos pioneiros e emblemáticos deste fenômeno, podemos citar figuras como o escritor alemão Ernst Jünger, a um só tempo predicando, por um lado, a nostalgia da gemeinschaft orgânica, do medievo germânico e, por outro, a ‘mobilização total’ (Totale Mobilmachung) da sociedade industrial em prol de um estado de guerra permanente, bem como o primado de uma casta aristocrática formada por guerreiros, pensadores e poetas; o também alemão Carl Schmitt, insigne jurista e filósofo político, que defende a tese de que todas as categorias da política têm um fundamento teológico, bem como a noção de que a ‘fenômeno político’ se configura como o terreno privilegiado da contraposição, da disjuntiva 'amigo/inimigo', sem apelo a quaisquer injunções de cunho ético ou racional; o peruano José Carlos Mariátegui, que mesmo sendo marxista, advoga, sob a influência de Sorel e Péguy, que "a força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. E uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito."; o italiano Julius Evola, senhor d’um estilo inigualável em sua forja majestosa e estratosférico arrebatamento, com sua defesa do retorno aos arcanos da Tradição como combustível espiritual para a revolta contra o mundo moderno; a francesa Savitri Devi Mukherji (nascida Maximiani Portaz), cuja obra é um ousado e fascinante exercício de incorporação da mística nacional-socialista aos princípios do Vedanta; d'entre outros autores.

Outrossim, há também um conjunto de pensadores e líderes políticos que, conquanto ideológica ou historicamente não possam ser associados à Grande Síntese, decerto apresentam contributos de inestimável valor para o projeto em pauta, dentre os quais poderíamos mencionar, por exemplo, os seguintes: Ernesto ‘Che’ Guevara e sua índole inequivocamente kshatriya, isto é, o arquétipo védico do GUERREIRO, do homem para quem o combate é, em si mesmo, um veículo de realização espiritual; o fervor militante, o ímpeto marcial, a 'ira santa' de Santo Inácio de Loyola e sua excelsa ordem, a Societas Iesu, os gloriosos 'soldados da Igreja'; Vladimir Lenin, no que tange à sagacidade tática com que concebeu e organizou o regimento interno do Partido Bolchevique, especialmente em seu aspecto de máquina partidária monolítica e disciplinada integrada por revolucionários 'profissionais; o Ayatollah Khomeini, que não canalizou politicamente o Islã para fazer a revolução iraniana, ou seja, não fez uso da religião para agir politicamente, mas sim lançou mão da política para atuar religiosamente em prol da regeneração espiritual e moral de seu país; etc.

Aliás, é mister salientar que, na esfera mais propriamente ‘política’ do projeto da Grande Síntese, a superação da falsa dicotomia entre 'esquerda' e 'direita', que gerou as grandes tragédias políticas e militares da modernidade, é sem dúvida a grande tarefa a que se propõe a chamada Terza Posizione, termo cunhado em 1978 com a criação do movimento político homônimo em Itália, sob a liderança de Peppe Di Mitri, e tendo como principais ideólogos Roberto Fiore e Gabriele Adinolfi.

Com efeito, torna-se cada vez mais evidente a existência d'uma oposição irreal, ditada por meras circunstâncias transitórias de índole 'política', 'econômica' e 'cultural', entre dois campos semânticos e simbólicos unidos por um profundo elo metafísico: a revolta sagrada do Espírito contra a ditadura ‘funcionalista’ da Razão 'instrumental'; do impulso romântico-messiânico contra os falsos ídolos do pragmatismo burguês; da esfera necessária, permanente, imutável e infinita da ETERNIDADE contra a dimensão contingente, transitória, cambiável e finita do TEMPO (ou então, nos termos d'uma belíssima declaração do líder taliban mullah Omar: "não tememos a morte, pois já estamos mortos; assim sendo, vivemos no Tempo, mas combatemos na Eternidade."); enfim, do rutilante fulgor da TRADIÇÃO contra a pseudoconsciência errática e fragmentária da MODERNIDADE.

E malgrado Di Mitri, Fiore e Adinolfi tenham cunhado o termo e, de certa forma, delineado os aspectos gerais do pensamento Terza Posizione, penso que o filósofo russo Aleksandr Dugin (tido, aliás, como um dos principais conselheiros políticos de Vladimir Putin, ex-presidente e atual primeiro-ministro da Rússia) é hoje, mormente em relação a questões de geopolítica, o pensador mais ousado no âmbito de tal perspectiva ideológica.

A grande 'estratégia' duginiana , por assim dizer, é justamente trabalhar, no âmbito da noção de 'geografia sagrada', categorias de análise tradicionalmente empregues na reflexão geopolítica.

E em que consiste tal noção? Enquanto a geopolítica opera na esfera do cálculo econômico, das relações comerciais, do paralelogramo das forças políticas em ação, a 'geografia sagrada' mergulha no universo dos Arquétipos Tradicionais e Mitos Fundadores, isto é, no escopo do substrato simbólico presente na origem de cada complexo civilizacional. E tal processo envolve, na esfera mais especificamente político-ideológica, a busca pela seiva vital das tradições culturais e civilizações de índole telurocrática e / ou eurasiana, isto é, dos complexos civilizacionais cujos alicerces mais profundos vão de encontro ao 'atlantismo talassocrático’, à 'Sociedade Aberta', ao iluminismo e ao liberalismo.
Retirado do grupodeur.blogspot.com


Escrito por Dídimo às 01h29
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Instrumentalização do ensino e ilusão

Desidério Murcho Universidade Federal de Ouro Preto

Geralmente não uso o termo “educação”; prefiro o termo “ensino”. Faço-o pelas mesmas razões que os defensores iluministas do ensino universal falavam de instrução, e não de educação: porque se opunham à instrumentalização do ensino — ideológica, política, religiosa ou social. Acontece que, infelizmente, hoje em dia parece cada vez mais que falar de ensino é falar de educação, que muitas vezes é apenas uma forma mentirosa de falar de doutrinação ou lavagem ao cérebro.

Qual é a diferença? Quem defende o ensino com base no valor intrínseco do que é ensinado, como é o meu caso, tende a desconfiar das instrumentalizações do ensino — por melhores que sejam as intenções. Quando me falam de educação para a cidadania já sei que logo a seguir vem a ideia de doutrinação: vamos doutrinar as crianças e jovens para qualquer coisa. E a mim não me interessa o que vamos doutrinar — o problema é a doutrinação. Uma vez mais, qual é a diferença?

O maior desafio do ensino de excelência é dar autonomia intelectual aos estudantes. E esse, do meu ponto de vista, é o objectivo prioritário. A doutrinação é exactamente o contrário disto: consiste em fazer os estudantes repetir lugares-comuns politicamente correctos sem qualquer atitude crítica perante eles, só porque vêm escritos nos manuais ou foram promovidos pelo Ministério da Educação, ou pelos professores, ou pela sociedade em que se acham por acaso inseridos. A diferença do ensino para a autonomia intelectual é que não se pretende que o estudante aprenda a repetir ideias feitas, mas antes a pôr em causa todas as ideias feitas. Não interessa se essa ideias feitas até são verdadeiras e defensáveis: se forem objecto de doutrinação, tornar-se-ão dogmas mortos nos espíritos dos estudantes e prepararão o terreno para o mais perigoso dos totalitarismos, que é o que foi de tal modo interiorizado que não é sentido como totalitarismo.

Fico por isso desconfiado sempre que se instrumentaliza o ensino. Do meu ponto de vista, a razão de ser do ensino é o valor intrínseco do que é ensinado. É importante ensinar filosofia, música, biologia, história, arqueologia, engenharia, e tudo o mais, porque essas coisas são importantes e porque muitos alunos têm talento para essas coisas e não o descobrirão se não contactarem com essas coisas na escola. Que essas coisas têm, depois, por vezes, aplicações sociais importantes é óbvio; queremos ter médicos competentes, e políticos, e engenheiros. Mas estaremos a construir sociedades totalitaristas se só houver competência técnica, mas não houver autonomia intelectual. Se das escolas saírem autómatos que sabem repetir, mas não pensar. Que são incapazes de pôr em causa, por si mesmos, as ideias feitas da sua sociedade, partido, religião, classe social ou etnia. Que só sabem repetir fórmulas matemáticas ou da biologia, teses filosóficas ou históricas, ideias sociológicas ou económicas, sendo totalmente incapazes de as pôr em causa.

A ilusão do instrumentalismo educativo é fácil de explicar e é uma parte da velha ilusão da infalibilidade que, como John Stuart Mill bem viu, está por detrás de todos os ataques à liberdade. Vejamos: a mentalidade pública contemporânea é fruto do quê? Do pensamento autónomo da maior parte das pessoas? Claro que não; é fruto da repetição impensada de ideias feitas. Essas ideias feitas foram implantadas na mentalidade das pessoas através da educação, explícita e inexplícita (a educação explícita ocorre sobretudo nas escolas, a inexplícita é dada sobretudo pelos pais, pelos grupos sociais, pela televisão, etc.; mas, claro, uma parte importante da educação inexplícita ocorre também nas escolas). A ilusão suprema de quem instrumentaliza a educação, encarando-a como doutrinação, é pensar que as suas ideias feitas são melhores do que as ideias feitas dos seus antepassados, cujo fruto é a sociedade contemporânea. Mas quem considera que a educação é fundamentalmente um instrumento de mudança social é porque considera que a sociedade que temos hoje não é a melhor. Contudo, sendo ou não a melhor, a verdade é que a sociedade que temos hoje resulta directamente da mentalidade que as pessoas têm e essa mentalidade resulta directamente da educação, sobretudo inexplícita, de que foram vítimas. O que garante então que as ideias que os reformadores sociais actuais querem introduzir sub-repticiamente no ensino são melhores do que as anteriores? Nada, excepto a ilusão de infalibilidade.

Toda a gente com fraca experiência de vida e de pensamento pensa que a sua mentalidade, os seus lugares-comuns, os seus valores e ideais são os melhores do mundo. Mas é evidente que isto é uma ilusão porque o mesmo pensavam as pessoas que no passado moldaram as mentalidades presentes, mentalidades que muitos reformadores sociais hoje consideram erradas. Assim, mesmo que se queira instrumentalizar a educação para fazer uma sociedade melhor, o caminho tem de ser a autonomia intelectual dada aos estudantes e não a repetição de gramofone das ideias que nós hoje consideramos bonitas. O caminho, mesmo nesse caso, tem de ser o mesmo caminho que teremos de trilhar caso defendamos que o ensino é importante primariamente por causa da importância intrínseca do que é ensinado, e não porque podemos instrumentalizá-lo para fazer “bons cidadãos”. Esta expressão, “fazer bons cidadãos”, é em si uma contradição nos termos. Uma sociedade humana não pode ser uma sociedade humana florescente se for uma sociedade de formigas, e fazer bons cidadãos envolve necessariamente fazer formigas: cidadãos que repetem conscienciosamente ideias feitas, valores herdados, lugares-comuns e outros artigos de contrabando intelectual.

Partidarismo, sectarismo, fanatismo, tribalismo, falta de autonomia — estas são algumas das raízes mais importantes das maiores tolices humanas. E são comuns. São ilusões inscritas nos nossos genes, talvez, tão inevitáveis quanto é inevitável pensar que os objectos mais pesados caem mais depressa ou que a Terra está imóvel. É preciso pensamento crítico, distanciamento epistémico, amor à verdade, probidade intelectual, para pôr em causa essas ilusões inevitáveis. Mas se tudo o que ensinarmos aos alunos é a substituir ideias feitas falsas por outras ideias feitas, ainda que verdadeiras, não teremos resolvido o problema de fundo, que é haver ideias feitas — tanto faz se são verdadeiras ou falsas.

 

O original foi publicado em www.criticanarede.com 



Escrito por Dídimo às 14h05
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